Desde que retomei seriamente as postagens no blog, em meados de 2006, recebo semanalmente centenas de e-mails, são leitores de distintas áreas do país que desabafam, cobram títulos de músicas, querem saber do paradeiro de tal artista, elogiam matérias e principalmente me incentivam muito. Sinceramente não esperava tamanha manifestação, uma vez que o assunto abordado nem sempre é levado a sério pela mídia convencional. Como profissional de comunicação, tenho o compromisso de emitir informações salutares, a fim de colaborar com o crescimento cultural de todos, todavia, expresso o que realmente penso sobre o assunto música popular, sem limitar opiniões alheias ou tolher crítica. Respeito para conviver bem, a diversidade cultural, sempre acreditando que gosto é pessoal, liberdade é relativa, opinião é parcial e pesquisa é fundamental em toda e qualquer informação dirigida ao público.
Pois bem, a introdução sisuda é para entrar no tema que eu relutei em escrever. Tudo porque um amigo que é médico, me telefonou para dizer que ao digitar meu nome no google, foi parar num site brega. Disse mais, que ao digitar a palavra “brega” foi parar no meu blog. É lógico que eu sabia. Eu mesmo havia feito o percurso inúmera vezes. Descobri na periferia da rede, que alguns sites e blogs recomendavam minha exaltação aos “cantores bregas” (por conta e risco deles), só porque reuni em torno da esfera “popular”, nomes como os de Odair José, Waldik Soriano, Genival Santos e outros intérpretes da música brasileira. Outro fator preponderante, é que escrevo freqüentemente sobre o autor do livro Contos Bregas, Thiago de Góes (de novo).
SE O ROMANTISMO DE ROBERTO CARLOS É BREGA, O QUE DIZER DE RAIMUNDO SOLDADO?
Não sou simpático com a palavra “brega”, ela vem carregada de preconceitos e informações distorcidas. A partir da inclusão da palavra no nosso cotidiano, em meado dos anos 80, ela já arruinou muitos projetos, principalmente projetos que ascendiam da cultura popular do Brasil. É muito fácil aceitar a nomenclatura brega como estilo, afinal ela reúne facetas interessantes do submundo pop, faz o feio parecer engraçado e o irreverente parecer medonho. Difícil é saber até quando esse estilo vai perdurar. Será que não estamos aceitando o preconceito imposto pela classe midiática? Ou ainda, estamos aceitando a rejeição camuflada de cultura inútil, só porque de repente tudo é válido, pelo menos para a tribo que aceita? Não estou convencido da idéia errônea de nomear de lixo, aquilo que tem uma história característica, e que também faz parte da cultura do meu país. É recente por demais para que eu aceite o brega como estilo. É difícil aceitar calado, colegas dizerem que determinado artista não se firmou porque era brega, ou seja, ruim. Um país continental como é o nosso, acata muitas culturas, manifestações distintas que enriquecem a história, mas desde sempre, hoje um pouco menos, o artista tinha que vencer no Rio ou em São Paulo para então conquistar outros estados do Brasil. Por que todo mundo tem que aceitar qualquer música? Podemos aceitar aquilo que nos toca com facilidade, sem que para isso tenhamos que abrir mãos da nossa preferência. O carimbó é do Pará, mas também é do Brasil, assim como o forró, que sai do nordeste para todo o país. A questão da preferência engloba toda uma fusão geográfica, ela está inserida no interior do brasileiro, se ele muda de lugar, a preferência segue junto, mas ele pode se interessar por outros estilos que não seja somente aquilo que lhe é característico. O cantor Raimundo Soldado (falecido), muito querido no Norte e Nordeste, reunia desempenho capaz de deixar Ferreira Goulart, Freud e AMY WINEHOUSE de queixos caídos. Suas letras simples, sua velocidade rítmica e seu humor nas composições, são por si só, suficientes para se iniciar um estudo à parte. Soldado não passou em branco pela história da música popular do Brasil, embora muita gente ainda precisa conhecer sua obra, o que deixou é capaz de resistir ao tempo e ao preconceito. Os ídolos do funk carioca têm pais cearenses, paraibanos, alagoanos e cariocas também. É um estilo que agrada principalmente os jovens, de qualquer lugar, não necessariamente do Rio de Janeiro. Lupicínio Rodrigues é gaúcho, mas sua música é brasileira. Caetano Veloso é nordestino, mas ao ser chamado de cantor baiano só lhe faz aumentar o prestígio, a Bahia é terra de Jorge Amado, Dorival Caymmi, gente que o povo nem conhece, mas que a mídia enaltece e os livros didáticos contêm. Caetano é baiano, mas canta inglês, fez faculdade e é gênio mesmo, pelo menos ao compor Sampa e outras seladas composições da Tropicália. Ser brega, de repente parece que é outro tipo de cultura. E de onde vem essa cultura? Estão pondo na mesma lixeira tudo aquilo que os críticos desinformados rejeitam. Estão batendo palmas para Arnaldo Jabor sem entender suas ácidas críticas, fizeram bem pior, com ampla publicidade, fizeram os jovens aceitarem Paulo Coelho como referência literária. Há erro nos fatos? Não há. O gosto é pessoal, a influência é que devia ser reavaliada. As escolas ensinam usando poemas de Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade, contudo os professores desconhecem a obra de Raimundo Soldado e Jackson do Pandeiro. É certo reprovar uma criança do interior do Maranhão num trabalho de interpretação de texto sobre Chico Buarque? Não seria mais justo, que primeiro ela conhecesse sua própria cultura e fizesse contato com a obra de artistas local?
Andy Warhol foi quem melhor descreveu o mecanismo frio de desumanização levado à prática pelos modernos meios de comunicação de massas. Ele disse: “Quando vemos várias vezes seguidas uma fotografia macabra, acaba por não nos causar nenhum efeito.”
E o que dizer de Carlos Drummond de Andrade em “Eu, etiqueta?” “Já não me convém o título de homem. Meu novo nome é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente.” Drummond chutou o balde diante do consumo exagerado, derramando repugnância sobre a coisificação geral daquilo que podia ser chamado de homem. Pascal foi mais além e desnudou a ética encapsulada da moral, envernizada de erros, mostrando suas vergonhas e deslizes, como de fato a ética está. “A verdadeira moral zomba da moral.” Nos versos de “A Lesma”, do poeta italiano Trilussa, que viveu no tempo de Mussolini, podemos consentir com o exemplo dado sobre a necessidade inerente do homem de se fazer eterno por meio do que ele próprio faz e deixa. “Exausta, a pobre Lesma da vanglória, ao atingir o cume do obelisco, disse, olhando da própria baba o risco: Meu rastro ficará também na História”.
11 julho 2008
A ESTÉTICA DO BREGA OU O LADO BOM DO KITSCH?
O TROPICALISTA TOM ZÉ É O AUTOR DO PRIMEIRO CD VIRTUAL LANÇADO PELA GRAVADORA TRAMA.


ENQUANTO ISSO, NO MOVIMENTO RETARDADO DA ANTROPOFAGIA MUSICAL, O GENIVAL LACERDA BERRA: DE QUEM É ESSE JEGUE? ELE QUER ME MORDER.
Qual será resposta para a crise na qual o mercado fonográfico encontra-se atolado, sem que ninguém lhe estenda a mão, ou lhe deixe de vez, enterrado e esquecido, assim como uma coisa ultrapassada que já não serve mais. Será que tem cura para essa espécie de isquemia que paralisou as gravadoras? Os últimos acontecimentos dão sinal de que a saída pode está muito mais longe (dependendo da distância entre a Internet e o consumidor) do que pensamos. A gravadora Trama, patrocinada pela VR, anuncia nas páginas centrais, inteiras, do jornal O Globo (espaço mais caro atualmente em jornais cariocas), o lançamento do primeiro cd virtual. A campanha alerta para o fato de que o interessado no produto não vai gastar nada, mas o artista ganha normalmente seu dinheirinho. A VR paga pelo download.
Isquêmica ou não, a veia musical não pode estancar. Genival Lacerda, Pinduca, e muitos outros artistas irreverentes como Tom Zé, precisam de bases financeiras para levar os trabalhos adiante. Quem se arrisca a associar sua empresa com nomes de artistas tão maculados?
09 julho 2008
BIANCA, DIANA E MISS LENE

MISS LENE CONTINUA CONQUISTANDO FÃS

O SUCESSO QUE VAI ALÉM DOS 15 MINUTOS
Bianca, Diana e Miss Lene, fazem parte de um período importante das gravadoras. Tempo em que divulgar um artista era muito mais fácil, pois quem mandava era o público, era ele quem decidia o sucesso do artista. Ao contrário do que vemos no mercado fonográfico atual, onde as gravadoras (multinacionais) tomam posturas determinantes, querendo meter nas nossas goelas, todos os tipos que eles chamam de qualquer coisa, até mesmo de música. Alegam crises advindas dos altos preços dos discos (CD), dos custos de produção, da pirataria, da larga disseminação do MP3, e esquecem do gosto e da preferência do público. O disco no Brasil sempre foi caro, mas eles esquecem que Diana vendia barbaridade, que Miss Lene bateu a marca de um milhão de cópias em menos de um ano, que Bianca fazia sucesso porque o público gostava mesmo era de suas músicas, e não por ela ser jovem e engraçadinha.
A GRAVADORA CBS DIVULGOU EM JORNAIS E REVISTAS DA ÉPOCA, A IMPORTÂNCIA DA CANTORA DIANA

CANTORA DIANA GANHA SITE HOMENAGEM
28 junho 2008
A FAMA QUE NÃO PÁRA DE CRESCER E O AMOR ETERNO DOS FÃS DE PAULO SÉRGIO
O Site www.paulosergiodemacedo.com sobre a vida e a obra de Paulo Sérgio, foi feito especialmente para que ele nunca deixe de ser lembrado. Segundo Adelina, fã fervorosa do cantor, “Paulo Sérgio sempre será amado. No Site, podemos mostrar toda sua trajetória, usando gravações de shows, fotos, vídeos, e família, incluindo os filhos do cantor”.Adelina não mede palavras para expressar o sentimento que acumula por Paulo. Ela conheceu Paulo Sérgio pessoalmente, tendo tempo para expressar sua admiração pelo artista ainda em vida. “Ele é inesquecível para seus fãs, que sempre dão um jeito de comentar a sua trajetória.Com o seu jeitinho único de cantar, ele agradava multidões, e é por eles também que o site foi ao ar, para que possam ter acesso e grande felicidade em tudo que encontrar sobre o ídolo Paulo Sérgio”. Adelina vem lutando durante anos pela memória do ídolo, em espaços como FÃ CLUBE OFICIAL PAULO SERGIO PARA SEMPRE no orkut.
22 maio 2008
ORLANDO DIAS. POUCA ALTURA, VOZ PEQUENA E UM SUCESSO GIGANTE
ORLANDO DIAS, MAS PODE CHAMÁ-LO DE LENDA DO ROMANTISMO POPULAR
Orlando Dias é mais um dos cantores que depois de fazer muito sucesso nos anos 60, 70 e 80, tem seu nome esquecido pelos letrados em música. É por isso, também, e pelo muito que ele fez pela música popular do Brasil, que recebe homenagem _simples, porém dileta_ do blog. Ao lado de Altemar Dutra e Agnaldo Timóteo, Orlando Dias foi seguramente detentor de maior prestígio na gravadora Odeon. Seus discos, sempre esmerados pela produção que os envolviam, estavam entre os mais vendidos do Brasil, ganhando destaque no rádio e na tevê, rendendo fama e prestígio junto ao público que lhe consagrou como um dos maiores intérpretes de boleros. Na década de 60, quando Waldick Soriano, ao lado de Teixeirinha, era estrela da gravadora Chantecler, Orlando Dias disputava fatia importante no mercado, como figura que podia disputar espaço de igual para igual com Waldick. Os dois eram superpopulares, e sempre com manias inusitadas para ganhar manchetes nas revistas especializadas, bem como na extinta Revista do Rádio. Waldick não escondia de ninguém que era “machão”, fazendo uma linha elegante, mas que logo foi interpretada como cafona. Enquanto que Orlando Dias, sem reservas, abria as portas da sua casa para receber a imprensa e mostrar sua coleção de bonecas, o que deixava seus fãs um pouco desapontados.
O nome verdadeiro de Orlando Dias era Adauto José Michiles e com o qual assinou centenas de composições. Não teve filhos, mas seu estilo foi copiado por dezenas de cantores que buscavam inspiração, principalmente, no gênero dramático de interpretar canções que quase sempre retratavam amores fracassados e ciúmes doentios. “Perdoa-me Pelo Bem Que Te Quero”, “Mentiste-me” e “Tenho Ciúmes de Tudo”, são músicas consagradas na voz do cantor pernambucano. Certamente, vivas na memória dos fãs. A canção “Tenho Ciúmes de Tudo”, marco inconteste na carreira do cantor, gravada em 1961, para o jornalista Rodrigo Faour (autor da biografia do cantor Cauby Peixoto) é horrenda. O jornalista, entre “Deus me livre!”, disse ainda, em 2000, que mais de cinco músicas de Orlando Dias, ninguém consegue ouvir. O que é lamentável, no entanto suficientemente compreensível, dado ao gosto pessoal que cada um tem e que deve ser respeitado, afinal, nem todo crítico é como Artur da Távola, que disse para Roberto Dávila: “Deus me fez insuportavelmente eclético. Ouço e gosto de tudo que é música”. A mesma canção, ganhou nos anos 70, uma interpretação pungente do eclético Caetano Veloso, disponível no site youtube, para quem quiser ver, e ouvir.
TENHO CIÚME DE TUDO
Tu és a criatura mais linda /
que os meus olhos já viram /
tu tens a boca mais linda /
que minha boca beijou /
são meus os teus lábios /
estes lábios /
que os meus desejos mataram /
são minhas tuas mãos /
estas mãos /
que as minhas mãos afagaram /
sou louco por ti /
eu sofro por ti /
te amo em segredo /
adoro o teu porte divino /
pela mão do destino /
a mim tu vieste /
tenho ciúme do sol /
do luar/
do mar/
tenho ciúme de tudo /
tenho ciúme até /
da roupa que tu vestes.
Dê sua opinião sobre a letra, lendo o romantismo e a poesia. Que mulher não gostaria de ouvir tamanha declaração de amor?
Na década de 80, quando as gravadoras começaram a agonizar, quando o repertório musical brasileiro toma outro rumo, Orlando Dias mudou-se para a gravadora Copacabana e, sem que ninguém esperasse mais algum sucesso por parte do cantor, para muitos, já ultrapassado, ele estoura nas rádios em 1983 com a canção “Com a Pedra na Mão”, de sua autoria com Maury Câmara. Orlando Dias teve seu espaço na mídia para brilhar e cantar suas músicas, enquanto viveu da profissão, recebeu elogios e foi reconhecido como autor de um estilo. Usou de artifícios como lenço branco, encenações e interpretações dramáticas, usou principalmente seu maior recurso para conquistar o Brasil, sua voz. Seu nome está entre os mais reconhecidos de uma era de ouro da música popular do Brasil.
Orlando Dias morreu num sábado, no dia 11 de agosto de 2001, na Ilha do Governador, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Tinha 78 anos e morava com a irmã. Um infarto ceifou-lhe a vida, mas sua voz sempre será ouvida através das canções rascantes.
Ele não fez se não, o mesmo que os poetas de hoje fazem, inseriu romantismo e fantasia na música, acrescentou uma interpretação particular para cada bolero, afinal, quem podia ser diferente? Sua obra merece atenção por parte dos estudiosos do assunto, não apenas citações. Evitar preconceitos, será sempre uma boa introdução para resgatar uma história sadia. Negar a participação é impossível, falar bem é de bom tom, e reverenciar como artista é nosso dever.
HOMENAGEM A ARTUR DA TÁVOLA, O HOMEM QUE ME ENSINOU A FAZER COMENTÁRIOS SOBRE A ARTE ALHEIA.

Gostaria muito que estas linhas sobre Artur da Távola, fossem lidas pelos leitores e que despertassem nos mesmos, interesse em conhecer o legado intelectual deixado pelo melhor crítico que o Brasil já teve. Mas não quero falar apenas do crítico, quero principalmente dividir com todos, minha admiração por uma historia de vida que inspirou milhares de leitores, que assim como eu, gostava da figura pública e dos textos de Artur da Távola. Quem tem vontade de trabalhar ou trabalha em televisão, certamente já leu as críticas escritas com sensibilidade e responsabilidade, e que sempre nos levava a reflexão sobre a opinião artística acerca do trabalho de autores, atores, diretores, cenógrafos, músicos e escritores do ramo. Tanto nas extintas revistas Amiga ou Fatos e Fotos ou ainda nos jornais que reproduziam a coluna que ele escrevia no jornal O Globo, sua conduta era a de sempre levar o leitor a refletir sobre a manifestação artística da qual ele emitia opinião. Nunca percebi o mínimo de preconceito em suas opiniões, talvez fosse por isso que ele sempre mereceu e recebeu respeito por parte da classe, mesmo sendo essa classe, a mais vaidosa de todas. Por muitos anos ele escreveu na última página da revista Amiga e fazia o mesmo na revista Fatos e Fotos, ambas da editora Bloch. Alguns textos foram capazes de transformar o olhar do leitor e permitir outro ângulo além do estabelecido pelo veículo de comunicação que emitia, deixando espaço para o leitor discordar da própria opinião do crítico, mas sempre gerando meios para que houvesse manifestação do leitor além do que estava lendo. Tenho nos meus arquivos, cerca de quatrocentas críticas escritas por Artur da Távola, muitas das quais relidas inúmeras vezes. O primeiro contato com as críticas escritas por ele, fiz quando ainda era um menino morador da Fazenda Santo Antonio, no interior do Ceará. Foi uma opinião que ele emitiu sobre o desempenho de Nádia Lippi _minha estrela preferida da televisão na época_ na novela global “Brilhante”, de 1981, a partir dali nasceu minha admiração pela opinião do homem que sabia transmitir o impensável. De lá pra cá, passei a reconhecer a importância da opinião de quem via tevê para poder escrever o que nem sempre os artistas gostavam de ler, no caso de Artur, impossível, pois mesmo que fosse para denunciar um deslize técnico, sempre vinha acompanhado por respeito ao profissional que fazia a obra. Um artigo escrito para tentar entender o sucesso de Evaldo Braga dez anos depois da sua morte, me emocionou ao perceber a sensibilidade daquele homem culto, freqüentador das mais nobres das festas, nas linhas escritas, se mostrava interessado em entender um fenômeno de massa. Transmitindo candura e paixão, fui às lágrimas com os textos sobre Clara Nunes, Elis Regina, Betty Faria, Sandra Bréa, Natália do Valle e Sonia Braga, muito mais ao entender a importância de se falar de atores secundários, que numa única cena escrevia seu nome na história através da opinião crítica de Artur da Távola.
Guardo comigo o arrependimento de não ter tomado atitude para expressar-lhe pessoalmente minha admiração por sua doçura e brilhantismo, quando um dia o vi na pré-estréia de uma peça no Leblon, e nossos olhares se cruzaram, ele sem saber nada de mim, eu, conhecendo um pouco da sua alma generosa e do seu espírito elevado, tendo sorvido e compreendido centenas dos seus textos, me deixei levar pela timidez e não cumprimentei meu mestre, que nem sabia o quanto tinha me influenciado. Perdi a oportunidade de dizer para aquele homem o quanto respeitava e admirava suas opiniões e principalmente sua escrita. Felizmente, consolo-me por saber que muitas das críticas que ele escreveu para milhões de leitores, estão guardadas na minha estante, sempre como algo relevante, na medida certa para relê-las na hora que eu quiser. Agora, por exemplo.
Hoje, quando escrevo para homenageá-lo, acrescento mais uma cena na minha memória, oxalá na minha história. Um sábado frio, com um clima chato e um acontecimento histórico como outro qualquer, mas que será diferente e importante como poucos acontecimentos históricos para mim. Voltando da feira de antiguidades na Praça XV, por volta das 15h, entrei no Paço Imperial para olhar a exposição do artista plástico Carlos Vergara e ao sair percebo uma pequena aglomeração na entrada do Palácio Tiradentes, olho para os lados e cinco segundos são o bastante para entender a movimentação. O corpo de Artur da Távola estava sendo velado e recebendo os últimos préstimos dos amigos e admiradores. Não tive coragem de aproximar-me, ainda mais quando vi descer do carro o governador de São Paulo, José Serra e logo em seguida Aécio Neves, de Minas. Preferi sentar-me e olhar de longe enquanto lia uma crítica escrita por ele na revista Amiga, que eu acabara de comprar na feira. Escolhi para sempre, não vê-lo morto, escolhi ficar com a imagem do casal de artistas Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça, que deixavam o local de mãos dadas e tristes pela perda, escolhi ficar concentrado na crônica que ele havia escrito em maio de 1983, pensando na beleza das atrizes Bruna Lombardi, Natália do Valle, Vera Fischer, Elizângela, Betty Faria e Ioná Magalhães. “Penso, cá de longe, como deve ser complicada e até triste a vida de mulheres muito lindas ou sensuais. Mesmo assim elas preferem a beleza à feiúra”. Assim como o conheci por meio da escrita, despedi-me do escritor por meio dela. Fico com suas perguntas encontradas dentro da crônica: “Inverto a situação, perguntando-me: eu agüentaria passar a vida sendo cantado? È suportável a tentação de ser querido por pessoas altamente sedutoras? Dá para agüentar? Como será a cabecinha de quem vive sendo cantada, admirada, procurada, cortejada? A um se resiste, mas a mil? (...) A mulher sensual sempre sofreu de solidão e opróbrio. Todos a temem. E os sistemas a condenam, marginalizam, apedrejam. A beleza, de certa forma, acomoda-se aos sistemas.” Fico com a crônica como se fora minha primeira homenagem pseudopública a Artur da Távola.

























